Pedro Lemos: A corrida entre o desporto, os estudos e o trabalho
Estudar, treinar, competir e ainda trabalhar. É esta a rotina do Pedro Lemos, atleta de atletismo da Next Level, que está a construir o seu percurso académico e desportivo na Point Park University, nos Estados Unidos. Num contexto em que conciliar o desporto universitário com as exigências académicas já representa um desafio, o Pedro decidiu ir mais longe e acrescentar uma experiência profissional ao seu dia a dia.
Atualmente no segundo ano de universidade, o jovem atleta divide o seu tempo entre os treinos, as aulas e o trabalho como tutor académico, onde ajuda outros estudantes a superar dificuldades em diferentes disciplinas.
Depois de ter alcançado a classificação máxima de 4.0 GPA no seu primeiro ano, o Pedro viu uma nova oportunidade profissional dentro da universidade. Uma experiência que lhe permite não só adquirir independência financeira, mas também desenvolver competências importantes para o futuro.
Conversámos com o Pedro para conhecer melhor esta nova fase, perceber como consegue gerir tantas responsabilidades e descobrir de que forma esta experiência está a contribuir para o seu crescimento dentro e fora das pistas.

Pedro, começando pela tua experiência nos Estados Unidos, como tem sido este percurso enquanto estudante-atleta?
A minha experiência tem sido completamente diferente daquilo que tinha imaginado inicialmente. Na minha cabeça, idealizava um campus enorme, uma universidade gigante e uma equipa de alto nível. A verdade é que não acabei num lugar assim.Mas isso não me fez desistir ou querer mudar. Aqui encontrei uma nova vida e uma rotina com a qual me identifico. A localização da Point Park é perfeita e, apesar de não ser o típico campus americano, tem as suas particularidades.
Também encontrei uma equipa que, embora não seja a mais competitiva ou experiente, tem pessoas que acreditam em mim e que me ajudam a acreditar que posso ser melhor.
Conciliar os estudos com o atletismo já exige bastante organização. Qual tem sido o teu maior desafio?
O maior desafio é encontrar uma rotina com a qual me sinta confortável e conseguir ser consistente todos os dias.
Às vezes apetece ficar mais umas horas na cama ou faltar a uma determinada aula, mas é preciso ter disciplina.
E o que mais te surpreendeu na forma como o desporto universitário é vivido nos Estados Unidos?
O atletismo, tal como os restantes desportos universitários, é vivido como um negócio. O dinheiro envolvido no desporto universitário nos Estados Unidos é de outra dimensão, o que proporciona muitas oportunidades para os atletas evoluírem.
O objetivo das equipas é trabalhar e investir para conquistar campeonatos, e é com essa mentalidade que trabalhamos diariamente. Além disso, existe uma maior facilidade em conciliar o desporto com os estudos, quando comparado com Portugal. Temos uma carga horária de aulas mais reduzida e uma maior flexibilidade por parte dos professores e das instituições.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar na universidade?
Comecei a trabalhar logo no meu primeiro ano, como freshman, na cantina da universidade. Não havia uma razão muito específica. Queria simplesmente começar a ganhar algum dinheiro e tornar-me mais independente financeiramente.
Este ano, já como sophomore, e depois de ter conseguido alcançar a média máxima de 4.0 GPA, candidatei-me para trabalhar como tutor, ajudando outros alunos com dúvidas em diferentes matérias.
Para além de ser uma experiência mais interessante do que trabalhar na cantina, permite-me ajudar outras pessoas e, ao mesmo tempo, valorizar o meu currículo.
Em que consiste exatamente o teu trabalho como tutor?
O meu trabalho consiste em ajudar alunos com dúvidas em disciplinas que frequentei durante o primeiro ano.
Os estudantes fazem uma marcação online para se encontrarem comigo presencialmente no Tutoring Center. Depois, durante cerca de 30 minutos a uma hora, explico a matéria e ajudo-os a rever exercícios. Quando não tenho sessões marcadas, continuo no centro de explicações e aproveito esse tempo para estudar, fazer trabalhos ou adiantar projetos, enquanto continuo a receber pelo meu trabalho.
Foi difícil conseguir esta oportunidade? Sentiste que a universidade te apoiou nesse processo?
O primeiro passo foi ter excelentes notas e, depois, demonstrar interesse em ajudar os outros. A universidade não facilitou o processo por eu ser estudante internacional. No entanto, como precisavam de alguém para dar explicações em matérias de engenharia e eu tinha boas classificações, fui rapidamente aceite.
Nem todos os estudantes-atletas optam por trabalhar durante a universidade. O que te motivou a assumir mais esta responsabilidade?
Esta experiência permite-me não só ganhar o meu próprio dinheiro e pagar as minhas despesas, mas também construir um currículo mais forte e desenvolver competências essenciais para o futuro.
Entre aulas, treinos, competições e trabalho, como consegues gerir o teu tempo? Sentes que trabalhar tem impacto no teu rendimento desportivo?
No ano passado, quando trabalhava na cantina, sentia que era um pouco exaustivo, especialmente depois de treinos mais exigentes, quando o corpo já estava cansado. Mas, desde que comecei a trabalhar como tutor, consigo descansar mais, controlar melhor o meu ritmo de trabalho e aproveitar os períodos livres para fazer trabalhos de casa ou desenvolver projetos académicos. Esta mudança tornou a conciliação entre as diferentes responsabilidades muito mais fácil.
Falando agora do atletismo, quais são os teus principais objetivos desportivos nesta fase?
O meu maior desafio desportivo tem sido conseguir estar entre os melhores atletas da equipa e marcar presença nas finais das conferências e, quem sabe, nos campeonatos nacionais.
Que importância tem tido a relação com o teu treinador nesta experiência?
A relação que criei com o meu treinador foi uma das razões que me deu segurança para continuar nesta universidade.
É alguém que me ouve, que me compreende e que procura sempre que eu esteja na minha melhor condição, sem pensar apenas nas competições ou em colocar-me a correr assim que esteja minimamente saudável. Ter esta abertura com um treinador é muito importante para mim e estou bastante satisfeito por ter conseguido construir essa relação.
Olhando para o teu percurso desde que chegaste aos Estados Unidos, sentes que esta experiência te está a fazer crescer também fora das pistas?
Sem dúvida. Sinto que estou numa fase em que a minha evolução, tanto enquanto atleta como enquanto pessoa, está num nível completamente diferente daquele em que estava há um ano. Agora já conheço melhor esta realidade, sei o que esperar e sinto que estou numa posição que me permite continuar a evoluir no desporto, nos estudos e na minha futura carreira profissional.
Para terminar, que conselho darias a outros estudantes-atletas portugueses nos Estados Unidos que gostariam de trabalhar, mas receiam não conseguir conciliar todas as responsabilidades?
Desde que cheguei aos Estados Unidos, percebi que temos bastante tempo disponível ao longo da semana.
Sinto que, se não tivesse estas 20 horas adicionais de trabalho por semana, provavelmente acabaria por desperdiçar parte desse tempo ou não seria tão produtivo. É claro que trabalhar torna o meu horário muito mais preenchido e exige que seja ainda mais disciplinado e assíduo.
Mas, para mim, é um desafio que me sinto confortável em aceitar.
A experiência do Pedro mostra que o percurso de um estudante-atleta nos Estados Unidos pode ir muito além das salas de aula e das competições. Entre treinos, estudos e 20 horas semanais de trabalho, o Pedro tem encontrado formas de aproveitar as oportunidades que a universidade lhe oferece, desenvolvendo competências que serão importantes tanto para a sua carreira desportiva como para o seu futuro profissional.



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