29 de Setembro, 2016
O Dia da Chegada

Mãe, estou sozinho no outro lado do mundo!

Teresa Nogueira
O dia da chegada é encarado pelos atletas com expectativa e algum receio.

Depois de aceitarem a proposta de bolsa apresentada pelos treinadores e de tratarem de toda a burocracia, os atletas portugueses partem então para os Estados Unidos rumo a uma nova vida bem diferente daquela que conhecem em Portugal. O dia da chegada é, assim, vivido com um misto de sentimentos: muita expectiva, receio, emoção e até saudades. Para saber exatamente o que sente um atleta que parte do seu país e chega a uma universidade norte-americana questionámos os nossos jogadores. As respostas são esclarecedoras.

Bernardo Vaza Ferreira está há um ano nos Estados Unidos a jogar e estudar na Christian Brothers University, em Memphis. Bernardo, único português da CBU, confessa-nos que a despedida e a adaptação custam um pouco mas que depressa se ultrapassa e conta-nos como tudo se passou no dia em que partiu para os Estados Unidos.

“Naquele momento senti que era algo que necessitava para a minha vida e que era a opção correta.”

Bernardo Vaza Ferreira estuda e joga há um ano na Christian Brothers University.

O que sentiste quando saíste de Lisboa? - Quando saí de Lisboa senti que estava a mudar a minha vida e que estava a embarcar numa nova etapa para a qual tinha trabalhado no ultimo ano e meio. No momento da partida, custa um pouco despedir-te da família e amigos, mas só no primeiro ano. Naquele momento senti que era algo que necessitava para a minha vida e que era a opção correta.

Como é chegar sozinho a um país novo? - Quando chegas o primeiro impacto que tens é que estas num país totalmente diferente de Portugal e é estranho ouvir toda a gente a falar numa língua que não é a tua, mas depois adaptas-te bastante rápido. No meu caso, a minha mãe acompanhou-me nos primeiros dias em que cheguei a Memphis. Como não cheguei sozinho, acho que não senti um choque muito grande.

Quem te foi buscar? - O treinador adjunto foi quem me foi buscar e me levou para a universidade. Também foi ele que me mostrou todo o Campus universitário.

Como foste recebido na universidade? - Fui recebido muito bem desde o primeiro dia. Tanto os meus colegas de equipa como os meus treinadores receberam-me muito bem. Nos primeiros dias da pré-epoca temos algumas reuniões de equipa para esclarecer as duvidas que possamos ter e para saber como funciona tudo na universidade e na equipa. Também temos algumas atividades que te fazem conhecer melhor os teus companheiros e te integram na equipa da melhor forma. O facto de muitos atletas serem estrangeiros ajuda-te bastante porque já passaram pelo mesmo e sabem a importância de uma boa adaptação.

Sentiste um impacto muito grande? - Nos primeiros meses apercebi-me que a cultura americana é muito diferente da portuguesa e que as pessoas também têm ritmos diferentes dos nossos. Os horários das refeições, os horários dos treinos e a comida são algumas das coisas que estranhei quando cheguei aos Estados Unidos, mas a adaptação foi muito rápida e, neste meu segundo ano, já sinto que ganhei alguns hábitos que não tinha em Portugal.

A vida que tinhas cá e a que tens aí é muito diferente? - Sim, a vida é muito diferente. Aqui uma grande parte da tua vida é passada no campus porque tens as aulas e os treinos dentro da universidade, e no meu caso também vivo no campus. Nesse aspecto, a vida é muito diferente do que em Portugal, onde tens que te deslocar para ir treinar e ir para as aulas. Aqui a vida é mais monótona, especialmente durante a temporada, onde tenho um calendário muito ocupado com as aulas, treinos e jogos. Claro que também saio como em Portugal e, sempre que tenho oportunidade, tento sair do campus com os meus colegas.

Quais foram as coisas que tiveste de tratar logo nos primeiros dias? - Tive que tratar da marcação das aulas que iria ter no primeiro semestre. Lembro-me também que tive que comprar algumas coisas básicas para o meu quarto.

Achas que fizeste a melhor opção? - Sim. Hoje sinto que tomei a melhor opção em todos os sentidos. Sinto que estes quatro anos aqui podem abrir portas muito boas para o meu futuro. Aconselho a todas as pessoas que gostem de desporto e que queiram estudar no estrangeiro. Tenho conhecido muitas pessoas diferentes, de muitos países, e acho que tem sido uma grande experiência em todos os sentidos.

“Com esta experiência dou ainda mais valor a tudo o que os meus pais fazem por mim.”

A Richard Bland College é, desde Agosto, a nova “casa” de Miguel Ramos

Miguel Ramos embarcou este ano rumo à Richard Bland College, em Petersburg, Virgínia. Do seu primeiro dia, recorda o entusiasmo, algum nervosismo e a extrema simpatia de todos os que o receberam. Admite as saudades da família e amigos, mas acredita estar perante um projeto fundamental para o seu futuro. Miguel conta tudo na primeira pessoa.

O que sentiste quando saíste de Lisboa? -Senti-me diferente, senti que ia iniciar uma nova aventura. Foi algo que nunca tinha experimentado, senti-me adulto, porque foi a primeira vez que fui para longe da minha família.

Como é chegar sozinho a um país novo? -Ao início é um bocado intimidador, não sabemos muito bem o que esperar, mas como eu estava bem preparado foi fácil e correu tudo bem. Foi importante conhecer todos os passos que tinha que fazer ao chegar aos aeroportos, principalmente onde fiz escala. De resto, senti uma sensação de liberdade com algum receio à mistura.

Quem te foi buscar? -Eu cheguei a Richmond à noite pelo que fiquei num hotel. Na manhã seguinte um jogador americano - que vinha de casa dele - passou pelo aeroporto e pelo hotel para me levar a mim e ao outro português, o Rodrigo Carvalho. Foram as primeiras pessoas que conheci.

Como foste recebido na universidade? -Fui muito bem-recebido, não estava à espera que as pessoas daqui fossem tão simpáticas. Todos os meus colegas foram muito simpáticos, e também gostei bastante da equipa técnica. Foi fácil integrar-me, principalmente tendo dois portugueses e dois brasileiros na equipa.

Sentiste um impacto muito grande? -No início foi quando senti um maior impacto. Na primeira semana estava com muitas saudades de casa, mas com o passar do tempo, e com a criação de amizades começou tudo a acalmar. Neste momento sinto-me bem aqui. É claro que tenho saudades de casa, mas não é algo que me afete todos os dias como no inicio.

A vida que tinhas cá e a que tens aí é muito diferente? -Aqui tenho que ser muito mais responsável, sou eu que tenho que cuidar de todas as minhas coisas. Em casa era sempre a minha mãe que me lavava a roupa, estava habituado a ter sempre a comida na mesa. Aqui tenho que ser eu a tratar de muitas dessas coisas. Com esta experiência dou ainda mais valor a tudo o que os meus pais fazem por mim.

Quais foram as coisas que tiveste de tratar logo nos primeiros dias? -Tive que tratar de arrumar tudo no meu apartamento, tivemos algumas reuniões de equipa e também tive que escolher as aulas que queria ter durante o semestre com o meu advisor.

A adaptação é difícil? -Ao inicio sim, temos que ser fortes mentalmente. Mas de resto só é mais difícil habituar aos horários, por exemplo, da alimentação. Aqui jantamos por volta das cinco da tarde.

Achas que fizeste a melhor opção? -Sim, penso que foi a melhor decisão porque aqui consigo conciliar as duas coisas que mais gosto: futebol e estudos. Esta experiência vai ser muito importante para o meu futuro.

“Aqui crias um certo nível de maturidade e responsabilidade por viveres sozinho”

Bryan Rodrigues Já está no 2º ano na Reinhardt University

O atleta Bryan Rodrigues já se encontra no segundo ano na Reinhardt University (RU), Atlanta. Apaixonado pelo futebol, Bryan faz um balanço muito positivo do primeiro ano que estudou na RU e jogou pela respectiva equipa de futebol. Confessa que a partida de Lisboa foi misturada com alguma tristeza e grande expectativa e que a adaptação é facilitada pelo excelente acolhimento de treinadores e jogadores. O atleta-estudante português garante que esta foi a melhor opção que poderia ter feito.

O que sentiste quando saíste de Lisboa? - É uma mistura de sentimentos. Triste pelo facto de deixar todos os meus amigos, família e o meu país, mas ansioso por começar um novo capítulo da vida em que tenho a oportunidade de estudar e ao mesmo tempo fazer aquilo que mais gosto, que é jogar futebol.

Como é chegar sozinho a um país novo? - Nunca é fácil pois não conhecemos nada nem ninguém na zona e nem é a nossa língua materna. Mas, felizmente, o treinador e os colegas de equipa tornam as coisas um pouco mais fáceis.

Como foste recebido na universidade? - Fui muito bem-recebido e o meu treinador já tinha tratado de quase tudo antes de eu chegar. Ao início, no balneário, está tudo muito tímido, pois os novos jogadores não conhecem os jogadores "da casa", mas ao fim de uns dias é como se já estivesses na equipa no ano anterior.

Sentiste um impacto muito grande? - Ao início, como é tudo novo, senti um grande impacto pois a cultura, gastronomia, o clima é tudo diferente. É uma coisa que demora um pouco para nos habituar.

A vida que tinhas cá e a que tens aí é muito diferente? - Em certos aspectos é diferente. Aqui somos nós a tratar de tudo sem qualquer ajuda dos nossos pais, como em Portugal. Aqui crias um certo nível de maturidade e responsabilidade por viveres sozinho sem qualquer ajuda da família. Também temos regras que temos que cumprir, especialmente durante a época futebolística.

Quais foram as coisas que tiveste de tratar logo nos primeiros dias? - Coisas básicas. Como não tens nada, a não ser a mala cheia de roupa, necessitas de comprar coisas para o quarto como lençóis, almofadas, produtos de higiene, etc. No meu caso, também tive de tratar das aulas que queria ter naquele semestre, pois não tive a possibilidade de o fazer quando ainda estava em Portugal.

A adaptação é difícil? - Apesar de todo o apoio que tens dos treinadores e colegas de equipa, as primeiras semanas podem ser um pouco complicadas. Nos tempos livres, começas a sentir saudades de casa, dos teus familiares e amigos, e até da comida. Mas ao fim de um certo tempo acabas por te habituar e torna-se uma situação normal.

Achas que fizeste a melhor opção? - Eu já vou para o segundo ano e, a cada dia que passa, sinto cada vez mais que foi a decisão mais acertada a fazer. Ter a possibilidade de estudar num país cheio de oportunidades para os jovens e ainda conciliar isto com o futebol, é simplesmente a melhor coisa! Aqui aprendes muito, dentro e fora do campo, e acabas por criar amizades que ficam para a vida. Acho que foi mesmo a melhor opção.

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