12 de Setembro, 2016
Rodrigo Carvalho, Richard Bland College

“Fui para uma verdadeira aventura”

Entrevista a Rodrigo Carvalho na academia da Next Level

Cumprido um ano nos Estados Unidos, qual é o balanço? - Acho que é uma grande experiência. Estou a gostar muito. O ambiente para onde fui é um ambiente muito familiar, muito pequeno, não é uma universidade tão grande. É uma faculdade de dois anos, e assim as pessoas estão sempre a mudar. Ainda agora tenho amigos que acabaram os dois anos e que não sei se vou voltar a vê-los. É uma grande experiência.

Fizeste amigos portugueses ou de outras nacionalidades? - Infelizmente não há nenhum português nem nenhum brasileiro, sem ser o meu treinador que é brasileiro. A minha equipa tem muitos jogadores de origem latina e depois também tem um queniano. Eu e ele somos os únicos que vieram diretamente do estrangeiro. Depois tem alguns europeus que já viviam nos Estados Unidos, como bósnios, um alemão, um francês e o resto é tudo descendente de imigrantes.

Como é ser o único português no meio de tanta gente? - Ah, tenho a certeza que eles já sabem muito mais sobre as equipas portuguesas do que antes, estou sempre a falar de Portugal. Tive a sorte de este ano o Benfica ter ido longe na Liga dos Campeões, eles gostam de ver e ficaram a perceber o que é que é Portugal e, claro, conhecem sempre o Cristiano Ronaldo.

Voltando ao início, quando conheceste a Next Level e viste que era possível jogar nos Estados Unidos, como tomaste a decisão? Qual era o teu sonho? Durante o processo que estive com a Next Level [em preparação], tive um ano, dois anos em que o futebol não me estava a correr muito bem. Jogava num clube do Campeonato Nacional, não estava a jogar tanto e, quando decidi, saí desse clube para jogar num clube mais pequeno da Distrital. Então esqueci um pouco esse sonho de lutar pelo futebol e tentar ser alguma coisa no meio do futebol. Depois quando apareceu a Next Level o bichinho voltou, o futebol é o que gosto mais, e voltou a surgir uma oportunidade para tentar o máximo dentro do futebol.

Como foi a tua chegada aos Estados Unidos? Fui com a minha família, que marcou férias para essa altura. Como não há voos directos eu fui para Filadélfia e fiz a costa até à cidade da Universidade. Mas por exemplo, o meu colega que também é estrangeiro foi recebido no aeroporto, trataram-lhe das coisas todas. A mim, foram comigo dar a volta ao campus, apresentaram-me a todas as pessoas que eu devia conhecer. Foi muito bom.

No início quais eram as tuas expectativas em relação ao que irias encontrar nos Estados Unidos? - Eu fui um bocado às cegas, não sabia ao que ia. Fui para uma aventura, ver o que é que dava. Os meus pais ajudaram muito e sempre me disseram para ir, mesmo que fosse só por um ano, um semestre. Apoiavam qualquer decisão que eu tomasse. Diziam-me: ‘Se não gostares voltas. Pelo menos não ficas com a sensação que nem tentaste’.

Chegaste lá e o que é que verificaste? - Eles recebem muito bem os atletas/estudantes. Fazem tudo para nos sentirmos bem. Como eu disse, o ambiente é mais pequeno e para nós que eramos os únicos estrangeiros que tinham vindo de fora do País, eles tiveram um extremo cuidado. Até os professores, se não estivéssemos a perceber muito bem, vinham sempre perguntar se precisávamos de ajuda.

De férias, Rodrigo Carvalho visitou a academia Next Level

E como é que é a vida no Campus? Como é um dia da tua vida? Nós podemos escolher os horários para as aulas e eu prefiro ter aulas de manhã. Os treinos são sempre às três da tarde, no meu caso. As aulas acabam ao meio dia, uma hora e eu prefiro ter sempre o tempo livre depois dos treinos para poder descansar ou estudar. Assim, normalmente tenho aulas ás oito ou às nove, vou almoçar, volto um bocadinho ao quarto ou fico pela zona de atletas, onde há uma sala de convívio. Depois o treino acaba por volta das seis, descansar, fazer o que é preciso para o dia seguinte. Temos bastante tempo livre. As exigências académicas são razoáveis mas penso que em Portugal é mais difícil. Nós portugueses conseguimos acompanhar muito bem o ensino. É só sermos organizados e responsáveis.

E em relação à carreira desportiva. Como pensas fazer? O primeiro ano correu-me muito bem. Melhor até do que eu esperava, já que joguei todos os jogos logo desde o início. No fim da época, conseguimos três prémios para a equipa, eu obtive o prémio “freshman do ano” dado pelo treinador. Fiquei muito confiante e motivado e com vontade de voltar para fazer um grande segundo ano e seguir para uma equipa com mais visibilidade. O meu objectivo é chegar à MLS, passo a passo.

Pela tua experiência, quais as vantagens de ingressar primeiro numa Junior College? Acho que há menos probabilidade de ficar esquecido e, num primeiro momento, de as coisas correrem mal até pelo tamanho das equipas e da universidade. Nas outras há muita gente, passa-se um pouco mais despercebido e temos mesmo de nos entregar e mostrar a nossa personalidade. Se as coisas não estiverem a correr bem, podemos ficar mais desmotivados. Na Junior College, é mais pequeno, há menos gente, quando preciso de ajuda sei exatamente a quem recorrer, é fácil conciliar academica e desportivamente.

Estás já a tratar da transferência para uma universidade de quatro anos? Neste momento, com um ano de antecedência estou já a falar com as universidades que acho mais ambiciosas, já mandei emails, alguns treinadores já responderam. Depois, quando a época acabar concentro-me nisto, estou a tentar ter as melhores notas possíveis, pois isso também ajuda. Agora estou com um GPA de 3.6, o que é muito bom.

O teu treinador dá-te apoio nessa transição? Tanto o Head Coach como o treinador adjunto ajudam-nos muito, até porque têm muitos contactos. Também jogámos com universidades grandes o que foi bom para fazer contactos. Aliás a função da Spring Season é mesmo expor-nos mais para as outras universidades. Este ano, o meu treinador estava mais preocupado com os atletas do 2º ano, pô-los a jogar mais para terem maior visibilidade, marcar jogos com as universidades para onde eles gostariam de ir e isso ajuda muito.

E como é que geriste as saudades de casa? O futebol ajuda muito no início porque a época desportiva começa antes das aulas e estamos com treinos bi-diários. Assim, esquecemo-nos um bocadinho porque estamos concentrados a jogar. Só quando chega o fim da época, lá para Novembro, é que se torna mais difícil. Felizmente consegui vir a casa no Natal e, no segundo semestre, já estava confortável e passou a correr. Agora já estou aqui outra vez.

Para que os pais possam ficar descansados, explica-nos como fazes com as refeições? A ideia que nós temos da comida nos Estados Unidos é real. O refeitório tem duas zonas: a zona de fastfood que é sempre a mesma coisa todos os dias, e a zona de comida saudável. Eu quase sempre a essa zona. Não é comida portuguesa, mas é melhor do que o que há nas escolas portuguesas. Tinha vezes que cozinhava em casa já que aprendi a cozinhar.

E partilhas casa com quantos colegas e que nacionalidades? O apartamento é muito bom. Partilho com oito, dois em cada quarto. No meu quarto tenho um amigo que é hondurenho, depois temos um bósnio, um queniano, um nigeriano, um americano, um latino de Porto Rico e tínhamos um mexicano que já saiu.

E como é que vocês se organizam? A nossa preocupação é manter o apartamento limpo, porque há inspeções regulares. O nosso estava sempre bastante bom, nunca tivemos multa. Mas outros companheiros da equipa tiveram.

Tens aí muitos amigos para ir passar férias… É mais ao contrário, eles é que querem todos vir cá.

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