29 de Novembro, 2016
Americanos querem ser potência no futebol

O sucesso do Soccer nos EUA

O soccer é cada vez mais apreciado nos EUA.

O futebol tem cada vez mais adeptos e praticantes nos Estados Unidos da América. À medida que o futebol profissional vai-se impondo em terras do tio Sam mais jogadores de renome carimbam a passagem para o outro lado do Atlântico. O negócio é cada vez mais lucrativo e o único senão a qualidade técnica promete ser ultrapassado em breve. Como não podia deixar de ser, os EUA têm tudo controlado a bem dos americanos e nosso também.

O que os Estados Unidos semearam há pouco mais de 20 anos estão agora a colher. Segundo os dados estatísticos mais recentes, a Major League Soccer (MLS), a principal liga americana de futebol, calcula que os Estados Unidos tenham aproximadamente 70 milhões de fãs e 20 milhões de praticantes deste desporto. Só a US Youth Soccer, entidade sem fins lucrativos que organiza jogos e promove o futebol entre as crianças, passou de 800 mil membros inscritos nos anos 80 para 3 milhões atualmente.

Tudo indica, assim, que o soccer nos Estados Unidos chegou para ficar. E para crescer, sendo verdade que este sector movimenta recursos cada vez mais volumosos e atrai investimentos estrangeiros para o país.

Nas escolas, o futebol já está entre os desportos colectivos mais praticados pelos estudantes, pouco atrás do beisebol e do basquete, duas coqueluches americanas.

No ano passado, pela primeira vez em 20 anos, a popularidade da MLS entre jovens de 12 a 17 anos de idade ficou no mesmo patamar de uma grande liga a de beisebol. Cerca de 18% dos adolescentes confessaram-se fãs ávidos desses desportos.

Presença crescente
Mas em grande medida a paixão pelo futebol já pode ser observada na vida americana: segundo um relatório da consultora Nielsen, 11 canais de TV transmitiam eventos de futebol em 2010, atraindo 266 milhões de dólares em publicidade. Três anos depois, 21 canais transmitiram futebol, gerando uma receita publicitária de 378 milhões de dólares.

A rede NBC paga à Premier League inglesa mais de 80 milhões de dólares anuais pelos direitos de transmissão do campeonato.

Mesmo a MLS recebe 30 milhões de dólares anuais de redes como a ESPN, NBC e Univisión canal em espanhol em direitos de imagem.

Além disso, este foi o país que comprou mais de 150 mil bilhetes antecipados para o Mundial no Brasil, ficando à frente de qualquer outra nação estrangeira. O jogo final dos EUA contra a Bélgica em Salvador foi assistido por 16 milhões de pessoas, superando, por exemplo, os cinco jogos finais da NBA (média de 15,5 milhões de telespectadores).

'Big five'?
Os argumentos podem ainda não ser suficientes para convencer a opinião pública num país onde as "big four" as quatro principais ligas desportivas nacionais não incluem o futebol.

Os campeonatos que mais atraem audiência e capturam a atenção do público são a NBA (basquete), NFL (futebol americano), MLB (beisebol) e NHL (hóquei). Porém, já há quem assegure que a MLS, de futebol/soccer, se juntará em breve a este grupo, transformando-o em "big five". Uma compilação da revista Forbes comprova que as equipas que integram a liga têm vindo a ganhar valor.

Em 2008, segundo o levantamento, a MLS tinha 14 equipas, que valiam em média 37 milhões de dólares e estavam a perder dinheiro. A equipa de maior valor era o LA Galaxy: 100 milhões de dólares.

Hoje, metade das 20 equipas é lucrativa e o valor médio supera os 100 milhões de dólares. O plano é expandir para 24 em 2020.

Além disso, a média de público dos jogos da MLS é de 19 mil maior do que o campeonato brasileiro e, claro, português.

Em 22 de junho de 2014, o empate entre os EUA e Portugal teve, apenas na ESPN, uma das duas TVs que transmitiram o Mundial lá, audiência de 18,2 milhões de pessoas (ao todo, nas duas transmissoras, foram 25,2 milhões de espectadores) maior que as famosas finais da NBA daquele ano (assistidas por 15,5 milhões de pessoas).

Nomes de peso
Esta não é a primeira vez que se acredita que o futebol dos Estados Unidos vai descolar. Na década de 1970, o New York Cosmos (do grupo Warner) montou uma verdadeira seleção com grandes craques do futebol mundial com a ideia de popularizar a modalidade. Jogavam lá Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer e Chinaglia para deleite dos fãs. No entanto, depois de cinco títulos, em 1984, o clube fechou as portas. Só em 2009 é que voltou a abrir. O que aconteceu naquela época? Por que é que o futebol não descolou? Jeff Agoos, ex-futebolista e director da MLS, responde: De forma simples, estamos em tempos diferentes. O nosso país mudou nos últimos 40 anos. Hoje vemos todas aquelas crianças que jogavam futebol crescidas e fãs da modalidade. Com o surgimento de novas tecnologias e a cobertura de medias sociais da MLS e outras ligas do mundo, o desporto é quase omnipresente. Entre 1970 e 1980 era muito difícil assistir a jogos de futebol na TV.

Nos anos 2000, o primeiro grande craque a ir para a MLS foi o inglês David Beckham, que integrou o LA Galaxy em 2007 (hoje, ele é dirigente desportivo: comprou o Miami e quer entrar para a MLS).

O negócio do futebol no país é, naturalmente, impulsionado por um planeamento estratégico ao melhor estilo americano - baseado na NBA e na NFL, as gigantescas e poderosíssimas ligas de basquete e futebol americano. E conta com investimentos chorudos do governo e de empresas estrangeiras. Criámos um modelo que é muito viável e cobiçado por várias das maiores ligas do mundo todo, explica Jeff Agoos. Esse modelo consiste numa organização com grupos proprietários sólidos, comprometidos com uma visão a longo prazo. O nosso objetivo é ser uma das maiores ligas do mundo por volta de 2022.

A medição do sucesso da MLS para alcançar a meta é baseada em quatro critérios: qualidade do jogo, paixão dos fãs, valor do negócio e relevância das equipas nas suas comunidades.

Alguns, como a paixão dos fãs, já são bem palpáveis. Ou o valor do negócio. Quando a liga foi criada, em 1996, não havia espaço para partidas na TV dos Estados Unidos. Na verdade, nós pagávamos para a ESPN e outras emissoras transmitirem os nossos jogos, revela Jeff Agoos. Hoje, temos um acordo multimilionário com ESPN, Fox e Univision aqui, TSN e RDS no Canadá e várias outras ao redor do mundo. O contrato americano que ele menciona vale por oito temporadas, adquiridas por 1,3 mil milhões de dólares. A previsão é de que, quando este vencer, seja renovado por 600 milhões de dólares ao ano.

O interesse dos brasileiros pela liga também cresceu bastante tanto por causa do dono brasileiro do Orlando City e de Kaká quanto pelo fato de mais de 15 brasileiros jogarem lá, incluindo Juninho, ex-sub 20 do São Paulo, tricampeão da Copa MLS pelo LA Galaxy. A liga tem hoje grandes figuras do futebol mundial. E lá pode ser o local em que vão desembarcar jogadores que já passam de uma certa idade e que chamam a atenção dos media e do mercado que, quando olham para lá, acabam descobrindo outros jogadores, afirma João Palomino, diretor de jornalismo e produção da ESPN no Brasil, primeira a transmitir os jogos da MLS naquele país. É um processo lento. A tendência é outros brasileiros seguirem esse caminho e o campeonato passar a ser ainda mais atrativo para o nosso público.

Qualidade técnica
Um dos itens de medição do sucesso da MLS, no entanto, está ainda aquém do padrão americano de qualidade: o nível técnico das partidas. Isso ainda é muito insipiente, muito fraco, diz Palomino. A liga necessita de mais jogadores. É preciso elevar o nível técnico. Vêem-se jogos de muita pancadaria, com erros primários. De facto, há mais partidas medíocres do que boas. A média de golos nas jornadas costuma ser menor que dois por jogo. E são comum empates de 0 a 0 há, no geral, três por jornada, tipo de coisa que costuma desagradar ao público norte-americano, que, fã de basquete e de futebol americano, gosta de ver o placard a mexer. Muita da baixa qualidade técnica se deve aos quase 50% de americanos que compõem a liga a outra metade é composta por estrangeiros e canadianos.

Isso, porém, resolve-se, segundo João Palomino. A MLS teve uma atitude muito inteligente: estabelecer níveis salariais. Há jogadores que têm autorização para rentabilizar conforme conseguirem, com publicidade, por exemplo. Muitos ficaram animados a ir para lá. Além que essas faixas salariais vão sendo aumentadas. Hoje eles têm um nível de jogador. À medida que a fasquia salarial vai aumentando, eles levam outros jogadores e conseguem melhorar a qualidade do futebol.

O jornalista refere-se aos designated players, jogadores autorizados a ganhar mais do que o teto salarial. A liga estabelece um limite de salário de até 436,2 mil dólares ao ano por atleta. Cada equipa tem até 28 jogadores, sendo que 20 são principais e oito, suplementares. Este teto é para os principais. Os demais ganham no mínimo 60 mil dólares anuais. Há apenas dois designated por equipa categoria na qual Kaká e seus 7,17 milhões de dólares por ano se encaixam. Embora a faixa salarial seja inferior à das grandes ligas, muitos jogadores olham com cobiça para a MLS. Não é só a possibilidade de ganhar dinheiro e ajudar um desporto a crescer no maior mercado mundial o que, pensando a longo prazo, é extremamente vantajoso que fazem os olhos de vários boleiros brilharem. A qualidade de vida oferecida pelas cidades americanas atrai tanto jogadores mais velhos, que querem sossego para suas famílias, quanto jovens que não têm oportunidade nos seus países.

Uma das maiores estrelas do futebol mundial, aliás, já anunciou os seus planos de ir para os Estados Unidos. Cristiano Ronaldo, eleito várias vezes melhor jogador do mundo, decidiu, segundo a revista Sports Illustrated, encerrar a sua carreira em Los Angeles, quando terminar o seu contrato com o clube espanhol.

O português pode ir para o Los Angeles Galaxy ou o Los Angeles Football Club, que deve ingressar na MLS no mesmo ano. Gente como CR7 não entra em campo para perder. Prova de que o soccer ainda vai ser grande nos Estados Unidos.

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